TRISTE FIM DA TROL



O ano era 1993. A empresa de plásticos TROL, que havia sido uma das mais importantes fabricantes de brinquedos do país entre as décadas de 60 e 80, sufocava em dívidas e agonizava na falência. O que lhe restava era uma fábrica praticamente abandonada que, às vésperas do Dia das Crianças, acabou fazendo a alegria de centenas de meninos pobres.

Este blog resgata a história publicada em 11 de outubro de 1993 pelo Jornal do Brasil, em reportagem de Karla Terra e foto de Ana Carolina Fernandes. A transcrição abaixo é literal:

CRIANÇAS SAQUEIAM FÁBRICA DE SONHOS
SÃO PAULO - As crianças da Favela de Heliópolis, a maior do estado, na região de Sacomã, zona sul da capital, terão talvez o melhor Dia das Crianças de suas vidas. O maior sonho, ter vários brinquedos, meio por acaso foi atendido. Não foi graças à caridade das instituições nem campanhas pelos menores de rua, mas a uma iniciativa das próprias crianças. Em bando, elas decidiram invadir e levar o que restava dos estoques da falida Trol, uma indústria da família do ex-ministro da Fazenda Dilson Funaro, que desde a morte do patriarca, em 1989, vem se debatendo para continuar no mercado em meio a um sem-número de títulos vencidos.
Totalmente desarmadas e munidas de muita paciência, as crianças cercam a fábrica desde quarta-feira e, ao primeiro descuido dos policiais, invadem e correm com seus sonhos debaixo do braço. Mas não só as crianças pobres que promovem os saques. O delegado Valdemir Domingues da Silva, da 95ª Delegacia de Polícia, disse que algumas pessoas de classe média já chegam ao local de carro e levam os brinquedos. O caso está sendo acompanhado pelo 3º Batalhão de Polícia Militar, que registrou a ocorrência de invasão de propriedade e comunicou a família. Desde sexta-feira, quatro carros de patrulha tomam conta do local.
Os produtos mais cobiçados são o Ferrorama e o Pega-Pega, brinquedos que as crianças das favelas jamais imaginaram possuir. Os "saqueadores mirins" têm de 5 a 13 anos e esperam, num exercício de paciência, o cansaço e o relaxamento da guarda. O Córrego dos Meninos circunda a fábrica e os 20 policiais, sob o comando do tenente Helio, admitem que estão apenas "dando susto" nos meninos, já que não dá para reprimir de forma contundente uma criança que, às vésperas do seu dia, tenta pegar algo que há meses está encostado atrás de um simples e frágil lacre judicial.
O garoto M., de 8 anos, está dentro do Córrego dos Meninos desde sábado à noite e conseguiu um quebra-cabeças e o Pipoquinha, uma maquininha de fazer pipoca. Seu objetivo, até ontem à tarde, não tinha sido atingido: o Ferrorama. "De noite é mais fácil. A polícia dá mole e a gente pula", diz o menino, todo sujo e ralado. Outro garoto, J., de 10 anos, é o grande herói da molecada. Ele é dono de um Ferrorama, um Pega-Pega e uma caixa com 10 raquetes, que pretende vender. "Vou vender na rua, porque eu não preciso de 10 raquetes", diz o menino que há três dias participa dessa vigília.
Sacos com dezenas de ursinhos de pelúcia e bonecas são desprezados. Foram apanhados pelas crianças mas, como são muitos, deverão ser vendidos. "A gente tá cobrando 700 pelo urso e 500 pela boneca", revela D., de 13 anos. À primeira vista, a boneca deveria valer mais que o ursinho, porém como esses comerciantes entraram no ramo agora, um erro de avaliação é possível.
A Trol, da família Funaro, está fechada desde maio, quando foi decretada a falência do grupo. Desde então, a companhia é alvo de depredações. Contudo, desde quarta-feira, com a aproximação do Dia das Crianças, o perfil dos ataques mudou. Fabricante de brinquedos e de todo tipo de material plástico - desde consoles de carros até caixas de televisores, passando por tigelas e bacias - a Trol guarda material altamente inflamável. Ontem, enfrentou o segundo incêndio em três dias, logo controlado pelos bombeiros.
"As chamas começaram no galpão de tintas e ficamos apavorados, porque ao lado fica o estoque de galões de benzina", disse um oficial. A situação - de um lado o corre-corre das crianças, de outro os riscos de incêndio - favorece a ação de ladrões. Ontem tentaram levar uma Kombi que fica estacionada na entrada da Trol, mas a polícia foi mais rápida e deteve quatro suspeitos.

Quer saber mais sobre a história da Trol? CLIQUE AQUI



Crianças cercam a fábrica da TROL, sob as vistas dos policiais.
Niños rodean a la fábrica de juguetes TROL, bajo la mirada de la Policía.
Children surrounding the TROL toys factory, while policemen are on duty.
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Comentários

  1. Muito legal ter conseguido resgatar esta matéria, até kombi tentaram levar, meu Deus! rsrsrs Na matéria senti falta da menção dos nossos amigos playmobil, será que já naquela época eles não eram mais tão procurados pela criançada? Abraços!

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    1. Obrigado, Cristiano.

      Eu fico em dúvida se o Playmobil ainda estava no estoque da TROL em 1993 ou se já era exclusivo da Estrela. Outro amigo atentou para um detalhe: a reportagem cita o FERRORAMA, mas este brinquedo sempre foi da Estrela e não da TROL!

      abs!

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  2. Bem legal a matéria, valeu por compartilhar, Zerocal.

    Se a molecada é um pouco mais discreta, levava os brinquedos todos e ninguém nunca ia imaginar o que aconteceu... rsrs Mas vamos combinar, em pleno dia das crianças, ninguém poderia ser discreto, certo?? rsrsrs

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    1. Valeu, Marcius

      Tristeza de uns, alegria de outros... E lá se foram, sem muita discrição, os estoques da TROL!

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