HISTÓRIA DA TROL


Aproveitando o Mês das Crianças, este blog volta ao tema já abordado no ano passado: a história da fabricante de brinquedos TROL. O texto abaixo foi originalmente escrito em espanhol pelo historiador Gregorio Centeno (site Playclicks), com tradução e edição do jornalista Carlos Alberto Guimarães (Fórum PlayBrasilmobil).

Como tudo começou
Corria o ano de 1935 quando o berlinense Ralph Rosenberg, com apenas 10 marcos no bolso, desembarcava no Brasil. Como tantos outros europeus daquela época, ele também se viu obrigado a abandonar a Alemanha de Hitler. Sem saber uma única palavra em português, logo começaria a tentar a vida em São Paulo. Por obra do destino, um de seus primeiros empregos foi o de vendedor de plásticos. Tão logo consegue juntar algum dinheiro, decide montar uma pequena fábrica de botões na garagem de casa. Em 1939, Rosenberg transformaria esta simplória instalação caseira numa empresa, nascendo ali o que chegaria a ser uma das mais importantes companhias brasileiras de fabricação e transformação de plásticos, a Trol S.A. Indústria e Comércio.

Naquela época, o mercado de plásticos era praticamente inexistente no Brasil. O crescimento e a expansão da Trol durante as décadas seguintes foi tão espetacular que, nos anos 60, a produção da Trol já se dividia em três grandes linhas: peças industriais sob encomenda, plásticos para uso doméstico e brinquedos.

Em 1967, a empresa criada por Rosenberg se funde com a CIBRAP (Companhia Brasileira de Peças Industriais S.A.), cuja carteira de clientes era composta por multinacionais do naipe da Philips, Volkswagen e Ford. Embora o nome da nova empresa resultante da fusão tenha sido mantido como Trol, esta passaria a ser dirigida e controlada acionariamente pelo dono da CIBRAP, Dilson Funaro.

Já sob o controle de Funaro, a Trol continuou no rumo do crescimento. Em 1969, tem início a construção de um parque industrial de 108 mil metros quadrados na Via Anchieta, em São Paulo. Posteriormente, na segunda metade dos anos 70, ocorreram sucessivos processos de aumento de capital, de tal forma que em 1980 já se havia multiplicado por 12 o montante existente em 1974.

A empresa começou a fabricar brinquedos ainda nos anos 50. Eles seriam muito populares nas duas décadas seguintes e competiriam no mercado com os de outra grande empresa brasileira, a Estrela. O catálogo de brinquedos Trol era bastante amplo e variado, incluindo bonecas, triciclos, miniaturas, jogos de tabuleiro, etc. Alguns, como o triciclo Velotrol, o Pega-Pega, as pequenas Fofoletes e a boneca Pierina alcançariam grande popularidade.


Surge o Playmobil
A partir de 1976, o carro-chefe da Trol seria o Playmobil (criado dois anos antes, pela empresa alemã Geobra). Seu lançamento ocorre em outubro daquele ano, assim que se obtém a licença exclusiva. O verdadeiro articulador da chegada do Playmobil ao Brasil foi o espanhol Francisco Ortega, então diretor comercial da Trol. Após várias reuniões com a direção da Geobra, esta lhe comunica a decisão de não conceder à Trol tal licença. Ortega, um grande vendedor e comunicador, faria a Geobra mudar de opinião apresentando as enormes possibilidades que o incipiente mercado brasileiro poderia oferecer.

Antes de trabalhar na Trol, Ortega já tinha vasta experiência no mercado de brinquedos, tendo fundado nos anos 60, junto com os Lavín, outra emblemática empresa de brinquedos do Brasil, a Casablanca (Indústria de Brinquedos Casablanca Ltda.), especializada em figuras de plástico e fortes do Velho Oeste (seu Forte Apache foi um estrondoso sucesso de vendas na década de 60). Os vínculos com o mundo do Faroeste influíram de maneira decisiva para que a Trol apostasse na série Velho Oeste desde o lançamento do Playmobil.

A aposta da Trol no Playmobil foi decidida e firme, priorizando investimentos e gastos neste brinquedo, em detrimento dos outros. Obviamente, a estratégia estava respaldada pelo sucesso que este teve junto ao público infantil. A relação entre Playmobil e Trol duraria quase 15 anos, durante os quais foram produzidas cerca de 250 caixas, boa parte delas exclusivas do Brasil. 

Aventura amazônica
Em fevereiro de 1967, é criada em Manaus uma área de livre comércio e incentivos fiscais com objetivo de ajudar o desenvolvimento da região amazônica. Nascia assim a Zona Franca de Manaus. Prontamente, muitas empresas radicadas em outros estados do país transferem para lá sua produção, a fim de aproveitar os benefícios e as regras tributárias especiais da área. Algumas o fizeram para se livrar dos impostos aduaneiros que incidiam fortemente sobre as importações, como foi o caso da Roly Toys Indústria e Comércio de Brinquedos S.A.

Fundada em 1965 por Mauricio Nhuch, a Roly Toys era uma empresa de brinquedos especializada em carrinhos em miniatura. Dois anos depois, torna-se a importadora oficial da Matchbox no Brasil, oferecendo seu catálogo completo. No entanto, a elevação dos impostos de importação leva seus diretores a uma mudança de estratégia: deixam de importar os Matchbox e passam a produzi-los no Brasil, tão logo conseguem a licença da Lesney Products; e ao mesmo tempo, transferem toda a sua produção para a Zona Franca de Manaus.

Aproveitando a mudança, no começo dos anos 70 a Roly Toys troca sua razão social para Inbrima Indústria de Brinquedos do Amazonas S.A. Dez anos mais tarde, a Lesney atravessaria uma crise econômica que a obrigaria a deixar de fabricar os Matchbox na Inglaterra e cessar suas atividades (a falência é declarada em julho de 1982). Como o catálogo de produtos Roly Toys/Inbrima era formado quase totalmente por miniaturas Matchbox, isso significou também o fim de sua produção pela fábrica brasileira, que acabaria encerrando as atividades em 1981.

Voltemos à Trol. Logicamente, seus responsáveis também se interessaram pelas vantagens oferecidas pela Zona Franca de Manaus. Por este motivo, criam em abril de 1975, em Manaus, uma sociedade chamada Trol Brinquedos da Amazônia S.A. Contudo, não há registro de qualquer atividade da mesma nos anos seguintes. Temos de esperar até 1981 para observar um novo movimento da Trol na ZF. Em setembro daquele ano, ela abre uma filial em Manaus sob a denominação Trol Amazonas S.A.; e, três meses depois, adquire a Inbrima que, embora estivesse desativada, contava com um importante parque industrial na Zona Franca. A jogada era perfeita, pois sua aquisição permitia à Trol contar com boas instalações na ZF e, não menos importante, beneficiar-se dos incentivos já concedidos à Inbrima, sem ter de começar do zero um novo processo de solicitação. Diante disso, a Trol sequer mudaria o CGC (Cadastro Geral de Contribuinte) da Inbrima. Quando em agosto de 1983 se decide mudar a razão social da Inbrima para Trol Brinquedos da Amazônia (a empresa criada em 1975 e sem nenhuma atividade desde então), o CGC seguiria igual.

A partir de 1982, a Trol transfere sua produção de brinquedos para a unidade da Inbrima em Manaus. Nas caixas já não aparece a Trol como fabricante, e sim a Inbrima, que era quem desfrutava dos benefícios fiscais por estar localizada na Zona Franca.



Perto do fim
Em março de 1985, Dilson Funaro chega à Presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Isso o obriga a desligar-se completamente da Trol. Em agosto do mesmo ano, é nomeado ministro da Fazenda, cargo que ocuparia até abril de 1987. Dois anos depois, o câncer linfático que sofria há vários anos lhe tiraria a vida.

Em setembro de 1987, a Trol se torna um estranho conglomerado de filiais e sociedades paralelas radicadas em Manaus, que parecem evidenciar o caos em que se encontrava afundada após a saída de cena de Funaro alguns anos antes. Eram elas:
- Trol S.A. Indústria e Comércio (Matriz)
- Trol Brinquedos da Amazônia S.A.
- Trol Mecânica S.A.
- Trol Amazonas S.A.
- Politrol da Amazônia S.A.
- Trol Indústria, Comércio e Representações Ltda.
- Trol Brinquedos S.A. Indústria e Comércio
- Politrol S.A. Indústria e Comércio

Em 1989, após a morte de Dilson Funaro, a situação da empresa a qual havia administrado com tanto êxito durante anos já era muito delicada, asfixiada por inúmeras dívidas. As dificuldades econômicas obrigariam a concentrar a produção de brinquedos nas marcas Playmobil, Tente, Gente Pequena e Matchbox. Um ano depois, decide-se investir todos os recursos unicamente no Playmobil. Entretanto, a situação já era irreversível e, no fim de 1991, a Trol Brinquedos da Amazônia teria de parar as máquinas. A produção de peças industriais ainda aguentaria mais alguns meses. Em 14 de maio de 1993, foi decretada a falência da matriz, Trol S.A. Indústria e Comércio.

A licença do Playmobil no Brasil passaria posteriormente às mãos da Estrela, mas isso já é outra história...
Folha de S.Paulo, 25/05/1993 


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Comentários

  1. É meu amigo, realmente uma verdadeira história da empresa. Muito bem pesquisada e contada pela reportagem.

    Por quantas mudanças nosso país já passou?.. Em muitas para melhores mas algumas outras nem tanto assim e, para diversas empresas "cinquentonas", essas mudanças foram bastante dolorosas.

    Esta aí um belo exemplo! Uma empresa, como tantas outras, de garagem, de imigrantes, porém com potencial promissor, tiveram uma ascensão em determinado espaço de tempo, talvez algum momento de estabilidade porém, uma "descida vertiginosa" até a falência! Uma pena mesmo!

    E, por outro lado (ou no mesmo lado, sob outra ótica), percebemos ainda aquele bom e velho exemplo do "dono" da empresa, aquele que faz e acontece, hoje seria chamado de "O Cara"... Bastou que o personagem principal saísse de cena para que a empresa também "quebrasse".

    Me lembro até daquela famosa música, de um belo grupo "tupiniquim": - Que país é este?

    Mas, voltando ao post, muito legal a reportagem. Bastante enriquecedora e esclarecedora... :) Até do Banerj tivemos notícia.

    Abraços Zerocal. Muito legal compartilhar conosco!

    Até o próximo.

    Marcius Victor.

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    1. Grande foi minha emoção em conhecer a historia da tro fabrica que trabalhei 13 anos de 67 a 80 melhor período da trol

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  2. Marcius,

    Todo o trabalho de pesquisa foi mérito do amigo Gregorio, a quem agradeço a cessão do texto original. Realmente, trata-se de uma viagem no tempo contando a SAGA de uma grande empresa nacional: começo, meio e fim.

    abs!

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  3. Cal,

    Realmente um belo texto, com uma história não tão bela assim, principalmente pelo seu final... porem, a Trol deixou um belo legado, para todos que gostam de Playmobil. Se hoje, temos vários colecionadores, devemos uma boa parte, a Trol, que fez do Playmobil um sucesso nos anos 80 aqui no Brasil, com seus belíssimos set's e, com qualidade que não deixa a desejar em nada para qualquer empresa de fora.

    E muito obrigado por compartilhar, e manda um "obrigado" ao Gregorio, que fez um belíssimo trabalho de pesquisa.

    []'s
    Vlad

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    1. Vlad,

      Sem saudosismo, mas podemos dizer que a "Era Trol" foi um momento bastante feliz na vida de todos os fãs de Playmobil no Brasil. Repetir aquele ciclo será algo virtualmente impossível...

      abs!

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  4. A minha homenagem diz apenas: - Trol, bom motivo para ser criança!

    Parabéns Cal, parabéns Gregório!

    Abraço,

    Luís.

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  5. Luís,

    Uma vez mais, agradeço suas palavras.

    abs!

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  6. Hi,

    did Trol buy the toy department from Hering S/A in 1986?

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    1. Hi, Smurfcollector

      I've never heard about that purchase -- although I'm not a specialist in Trol's history.

      I know Hering Rasti is from Argentina and stills producing toys for the local market.

      Regards!

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  7. Parabéns a todos. Até hoje tento encontrar umas escovas cujas cerdas eram do mesmo material(plástico) da parte que se segura e... não consigo nada nem semelhante... mesmo procurando nos EEUU. Eram excelente para escovar cães e até cavalos.
    Portanto, minha homenagem seria mais "TROL, bom motivo para ser brasileiro!" Que saudade daquela época... e de um Brasil crescendo com a ajuda de um JK ou um Funaro...

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    1. LuMarina,

      Obrigado pela visita e pelo comentário.
      Vc citou dois homens de ação, visionários e de grande valor à História do nosso País.

      Obrigado, volte sempre!

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  8. Tcr foi minha infância....adorava meus carrinhos...Sdds dessa época...trol eternamente em nossos corações

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