HISTÓRIA DA ESTRELA


Celebrando os 40 anos do Playmobil e sua trajetória de sucesso no Brasil, retomamos agora a série iniciada em outubro do ano passado, quando apresentamos a história da TROL. Dessa vez, vamos falar da fábrica de brinquedos Estrela, num texto originalmente escrito em espanhol pelo historiador Gregorio Centeno (site Playclicks), com tradução e edição do jornalista Carlos Alberto Guimarães (Fórum PlayBrasilmobil).

Nasce uma 'Estrella'

No fim dos anos 20, a indústria de brinquedos no Brasil é praticamente inexistente. A produção nacional era escassa e a imensa maioria dos brinquedos encontrados nas lojas era importada, sobretudo da Alemanha, França e Estados Unidos.

No entanto, esta situação mudaria na década seguinte. Com a chegada ao poder de Getulio Vargas, em novembro de 1930, seriam assentadas as bases para a mudança da economia rumo a um modelo industrial. Coloca-se em prática um processo de industrialização do país que o permite ser cada vez menos dependente do exterior em matéria de bens manufaturados, com a produção nacional incentivada a partir do Estado. É aí que uma empresa radicada em São Paulo e dedicada à fabricação de embalagens de metal para alimentos e bebidas começa a fabricar em série brinquedos de latão. Estamos falando da Metalúrgica Matarazzo, que durante várias décadas criaria charmosos brinquedos sob a marca Metalma.

Junto à gigante Matarazzo, outras empresas de brinquedo menores tentavam abocanhar uma fatia do mercado paulista. Como a de Constatinto Tonatti, uma modesta fábrica especializada em bonecas de pano que, no início de 1937, atravessa um momento econômico complicado. De origem italiana como os Matarazzo, Tonatti não teve a boa estrela que sempre acompanhou aquela família, embora tenha batizado exatamente assim seu pequeno negócio: Manufatura de Brinquedos Estrella (com duas letras “L”, conforme a grafia portuguesa da época). Em junho daquele ano, após declarar falência, Tonatti venderia a empresa a Siegfried Adler.

Outra vez, um imigrante alemão fugindo da Alemanha nazista seria o protagonista da origem de outra grande empresa de brinquedos brasileira, a Estrela. Assim como Ralph Rosenberg, fundador da Trol, Siegfried Adler chegara ao Brasil também em meados dos anos 30 e se instalara em São Paulo. No entanto, a estratégia empresarial de cada um seria bem diferente. Enquanto Rosenberg cria a Trol a partir do nada, Adler decide começar a partir de uma base já existente, a pequena fábrica de bonecas de pano de Tonatti.

Durante os primeiros meses, já com Adler à frente dos negócios, mantém-se a produção de bonecas de pano, embora cada vez mais sofisticadas. Mas logo se iniciaria a fabricação de outros tipos de brinquedo, em metal e madeira. Os novos produtos são bem-sucedidos e a carteira de clientes da Estrela não parou de crescer. Em 1940, a variedade de bonecas e brinquedos de madeira já era considerável. Em meados desta década, o catálogo da Estrela incorporaria também trajes e armas do Velho Oeste, jogos de construção, patinetes, joguinhos educativos etc. Como se vê, a aposta de Adler nos brinquedos foi clara desde o primeiro momento, contribuindo de maneira decisiva para o que seria, anos depois, a grande indústria de brinquedos do Brasil. Em 1944, a empresa se torna sociedade anônima. Ao fim do mesmo ano, altera levemente sua razão social, passando de Estrella para Estrela.

A revolução do plástico

A chegada do plástico, encerrada a Segunda Guerra Mundial, marcaria a primeira grande revolução no setor de brinquedos. As bonecas de pano e os brinquedos de madeira seriam os mais afetados, embora a Estrela não deixasse de fabricá-los. Esses primeiros anos da Era do Plástico pegaram Adler um tanto desprevenido, ao contrário do que ocorreria com a Trol, que desde o princípio já contava com o maquinário necessário para fabricar brinquedos neste novo tipo de material. No caso da Estrela, durante algum tempo ela dependeu de uma empresa externa que produzia as peças de plástico. Contudo, Adler logo daria fim a essa situação, conseguindo para sua empresa o melhor e mais inovador maquinário, bem como os melhores materiais para a fabricação de seus brinquedos. Em 1950, a variedade e a qualidade das bonecas da Estrela era altíssima – algumas delas contavam com mecanismos e movimentos totalmente inovadores.

Em 1958, morre Siegfried Adler, deixando como legado uma empresa fortemente consolidada, com ações negociadas em bolsa e escritórios em todos os estados da Federação e em vários países da América e Europa. Em 1964, tendo concluído seus estudos nos Estados Unidos e após vários anos de formação em companhias de brinquedos daquele país, seu filho, Mario Adler, assume a direção da Estrela. Ele seria o encarregado de modernizar a empresa e de implantar uma estratégia de marketing, apostando desde o primeiro momento na presença em feiras internacionais. De fato, é o próprio Mario Adler quem comparece a elas. A partir dessas visitas e de negociações posteriores, chegaram ao Brasil diversos brinquedos de sucesso em outros países. Os produtos licenciados, aliás, sempre desempenharam um papel importante na estratégia empresarial da Estrela. 


Nos anos 80, a Estrela mantinha-se na vanguarda da indústria de brinquedos nacional. Ao sucesso alcançado nos anos 70 por sua Barbie e seu Falcon, se somariam agora os Comandos em Ação. A empresa foi ainda a pioneira na introdução de jogos magnéticos e eletrônicos. Em 1989, a Estrela abre sua própria fábrica na Zona Franca de Manaus, para onde destina a maior parte da produção de brinquedos de plástico.

A situação econômica desconfortável e o posterior desaparecimento da Trol em 1993 permitiram à Estrela adquirir algumas de suas licenças, como por exemplo, a do Playmobil. A Estrela deteria esta licença exclusiva até 1997, embora o último catálogo com novidades seja o de 1995. A produção do Playmobil era concentrada na fábrica de Manaus. Em 1997, ano em que deveria ser renovada a licença caso as duas partes assim concordassem, a Geobra comunicou à Estrela que preferia que esta deixasse de produzir o Playmobil e passasse a importá-lo. Isto representava maiores custos para a Estrela, que decidiu não aceitar as novas condições e, assim, não renovou o licenciamento. 

A invasão chinesa

A robustez da empresa, somada à estratégia de licenças com multinacionais do setor para comercializar com exclusividade alguns de seus brinquedos mais vendidos, permitiu à Estrela enfrentar com alguma segurança a década de 90, anos amargos para a indústria nacional de brinquedos. A drástica redução de tarifas de importação estabelecida pelo governo no começo dos anos 90 propicia a entrada maciça dos brinquedos chineses no mercado brasileiro. Incapazes de competir com os preços ínfimos dos produtos “Made in China”, muitas empresas se veem obrigadas a fechar as portas. Diante do risco de aniquilação da indústria nacional, o governo reverte o quadro em julho de 1996, introduzindo medidas protecionistas a fim de tornar o setor mais competitivo.

Contudo, a crise dos 90 também afetou a Estrela, provando ser necessária uma reestruturação que reduzisse custos e saneasse suas contas. Mario Adler decidiu confiar esta missão a Carlos Tilkian, executivo egresso da multinacional Gessy Lever, transformando-o no presidente executivo em julho de 1995. Coisas do destino, uma das medidas que teve de adotar foi a transferência de parte da produção para a China. Mas neste cenário, Adler já não se sentia tão à vontade, pois esta não era mais a sua Estrela. Em abril de 1996, Tilkian adquire 85% das ações da companhia e assume o controle.

Com filosofia e estratégia empresariais adaptadas ao século 21, Tilkian soube manter a Estrela no firmamento do mercado. Em 2012, a empresa celebrou 75 anos. Sua história faz parte da história do Brasil e da memória afetiva de todo colecionador. Seus brinquedos marcaram a infância de milhões de meninos e meninas que um dia já brincaram com as bonecas Pupi, Gui Gui, Susi, Sapequinha; com o Banco Imobiliário, o Autorama, o Falcon, os Comandos em Ação... e, claro, com o Playmobil!


Foto cedida por Ana Caldatto

Evolução do logotipo da Estrela, desde a fundação em 1937
Evolución del logotipo de la industria brasileña de juguetes Estrela
Various logos from Brazilian toy manufacturer Estrela


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Comentários

  1. Uma excelente pesquisa Zerocal, vocês estão de parabéns!

    Nos proporcionar relembrar, reviver e conhecer um pouco mais desta "gigante" empresa é, sem dúvida, uma grata oportunidade. E, percebemos que, como muitas, para a Estrela não poderia ser diferente...

    Empresários / empreendedores / pessoas de visão que, na época, não recebiam esses títulos mas já tinham um grande diferencial e enorme potencial para vislumbrar um sonho e fazer acontecer!

    "Infelizmente" (entre aspas) nosso país ainda não tinha esta visão e por isso (além de outros tantos motivos) os estrangeiros que vieram, fizeram e ainda fazem grande diferença!

    Percebemos uma linha muito tênue entre as 2 empresas TROL e ESTRELA, assim como uma postura muito parecida da fabricante Geobra "em dias de crise". Uma pena não termos a continuidade de fabricação por aqui e termos que depender da importação para diversos brinquedos entre eles, nosso querido Playmobil.

    Parabéns mais uma vez à vocês!

    Forte abraço, Marcius Victor.

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  2. Excelente comentário, Marcius.

    Não tenho o que acrescentar, a não ser agradecer ao amigo pela presença constante aqui neste blog.

    Abs!

    ResponderExcluir
  3. Respostas
    1. Obrigado, Ana!

      Aproveito para agradecer pela cessão da foto com os logotipos da Estrela.

      abs!

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